Rafael Pinto Bandeira


Rafael Pinto Bandeira, filho de Francisco Pinto Bandeira (*1701, Laguna-SC; 15.6.1771, Rio Pardo-RS), capitão de dragões, e de Clara Maria de Oliveira (*1720, Colônia Sacramento; 1º.01.1781, Porto Alegre-RS), casados em Rio Grande-RS em 1738, nasceu na hoje cidade de Rio Grande-RS, em 16 de dezembro de 1740 provavelmente; mas seguramente foi batizado a 17 deste mes, "nesta Matriz de Jesus Maria José da fortaleza do porto" (Rio Grande-RS), segundo reza o livro nº 1 de assentamentos de batismos, à folha 15-verso. 
Foto de retrato existente no Museu de Laguna-SC
A formação de Rafael efetuou-se na época em que o Rio Grande do Sul lutava para se constituir como pedaço da comunidade lusitana. Era um período agitado e, mesmo nos intervalos das guerras regulares, não havia paz: a luta continuava nas fronteiras ainda não determinadas, sustentadas por pioneiros provenientes de Laguna, Curitiba e São Paulo. 

Quando, em decorrência de medidas tomadas visando à execução do Tratado de Madri, foi descoberto um passo na confluência do rio Pardo com o rio Jacuí e levantado o forte Jesus-Maria-José, recebeu o Tenente Francisco Pinto Bandeira a incumbência de guarnecê-lo, participando com seus homens da construção. Acompanhava-o Rafael que, ainda guri, participou, ao lado de seu pai, da primeira escaramuça havida contra os índios dos Sete Povos. Em 31 de julho de 1754, antes portanto de completar 14 anos, assentou praça em Santo Amaro, na companhia do Cap. Pedro Pereira Chaves, sendo promovido ao posto de cabo em 11 de novembro de 1760. 

Sua destacada atuação militar torna-se nítida a partir de 1763, quando os espanhóis conquistam o Chuí, a vila de Rio Grande e outros pontos estratégicos do chamado "Continente de São Pedro". O centro de resistência lusitana localizou-se na 'Tranqueira' de Rio Pardo. 

Os meios para enfrentar os espanhóis, na luta de reconquista, eram poucos. Foi necessário contar com o auxílio indispensável dos conhecedores do terreno rio-grandense, tirando-se disto o máximo proveito. A solução foi adotar a guerra de guerrilhas, ordenada pelo governo do Rio de Janeiro em 6 de julho de 1763: "A guerra contra o invasor será feita com pequenas patrulhas atuando dispersas, localizadas em matas e nos passos dos rios e arroios. Destes locais sairão ao encontro dos invasores para surpreendê-los, causar-lhes baixas, arrruinar-lhes cavalhadas, gados e suprimentos e, ainda, trazer-lhes em contínua e persistente inquietação." Rafael Pinto Bandeira

Dotado de prodigiosa acuidade visual, Rafael Pinto Bandeira era o típico vaqueano, guardando na memória os rios, as serras, as cruzadas de todo o Continente de São Pedro. Surgiu daí a lenda, originada da supersticiosa adoração que seus soldados lhe devotavam, de que Rafael, mesmo a qualquer hora da noite mais tenebrosa, podia orientar-se unicamente provando o sabor dos pastos e ervas. E o marquês de Lavradio, em carta ao vice-rei Vasconcelos, enfatizava: "A cabeça de Rafael é o verdadeiro mapa do Rio Grande". Em 2 de janeiro de 1765, atendendo aos seus méritos, o vice-rei o promoveu ao posto de tenente para servir na Companhia de Dragões comandada por seu pai, já capitão. 

Participou ativamente da luta de reconquista de Rio Grande e seus grandes feitos foram a tomada do forte São Martinho (posto avançado dos Sete Povos das Missões, considerado inexpugnável por causa do terreno escarpado) e o sítio ao forte de Santa Tecla (próximo à atual cidade de Bagé-RS), onde, após 26 dias de cerco, a guarnição espanhola capitulou, sob condições, retirando-se para Montevidéu. As muralhas de Santa Tecla foram totalmente arrasadas. 

Por essa época, Porto Alegre firmou-se como sede da governança militar do Rio Grande do Sul. 

A notícia da tomada de Santa Tecla chegou a Lisboa com vibrante júbilo, resultando na promoção de Rafael ao posto de coronel (comandante da Legião de Tropas Ligeiras) e na concessão do hábito da Ordem de Cristo. 

A paz entre Portugal e Espanha se fez com o tratado de Santo Ildefonso de 1º de outubro de 1777. 

Ao Tratado seguiu-se a demarcação de limites, em operação conjunta dos dois países. O governador militar, brigadeiro Veiga Cabral, foi indicado como 1º Comissário de Portugal e em função disso teve de ausentar-se de Porto Alegre. Em seu lugar, a governança foi assumida interinamente por Rafael Pinto Bandeira, em 25 de janeiro de 1784, tendo sido ele o primeiro rio-grandense a ascender a tão alto cargo. 

No ano de 1788 é convidado pela rainha D. Maria I a visitar a Corte de Lisboa. Lá se demora até o ano seguinte, sendo distinguido com honrarias jamais prestadas a outro brasileiro. Além de receber atenções especiais da rainha, registra-se o fato de uma alta dama da corte ter esculpido sua efígie numa miniatura de marfim. 
Rafael Pinto Bandeira
Regressou ao Brasil em fevereiro de 1790, ostentando os galões de General-Brigadeiro do exército português. Foi o primeiro brasileiro a alcançar tão alta graduação militar. 

Tornou a ocupar interinamente a governança militar do Rio Grande do Sul em 29 de abril de 1790. 

Pela aquisição de bens por meio de butins (operações de guerra), Rafael Pinto Bandeira conseguiu considerável fortuna, e sua estância era considerada a de mais avultado patrimônio no Continente de São Pedro. Inclusive, ele se dava ao luxo de ter uma pequena orquestra em sua estância, para animar as horas de refeição. Procurou recompensar seus legionários, e muitos deles tornaram-se prósperos estancieiros. 

Todavia, a vida sedentária imposta pelo cargo de governador militar fez com que engordasse muito, adquirindo tal peso a ponto de não poder montar a cavalo senão com o auxílio de alguém. Sua morte teria sido provocada por um acidente ao montar. 

Faleceu a 9 de janeiro de 1795, em Rio Grande-RS. Seus despojos encontram-se na matriz daquela cidade, à esquerda de quem entra, numa tosca urna de madeira.
 

In: 'Calendário Histórico Cultural do Rio Grande do Sul', publicação do Instituto Estadual do Livro-RS, no governo de José Augusto Amaral de Souza (15.03.1979/15.03.1983). 
Bibliografia:
Pinto Bandeira, de Darcy Azambuja, 1938. 
A Família Pinto Bandeira, de Mário Teixeira Carvalho, 1940. 
História do Rio Grande do Sul, Período Colonial, de Guilhermino César, 1970. 
A vida de Raphael Pinto Bandeira, de Alcides Cruz, 1906. 
Enciclopédia da Música Brasileira, 1977. 
Dominação Espanhola no Rio Grande do Sul, de Jônathas da Costa Rego Monteiro, 1974.
Rio Pardo na Simbologia Rio-Grandense, de H. Canabarro Reichardt, 1979. 
Povoamento do Rio Grande de São Pedro e a Contribuição da Colônia do Sacramento, de Carlos G. Rheingantz, 1979. 
Notas à Margem da História do Rio Grande do Sul, de Riograndino da Costa e Silva, 1968. 
Construtores do Rio Grande, 1963. 
O Rio Grande e o Prata: Contrastes, de Moysés Vellinho, 1962. 


 

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